
O Antimago
L. Ronny F.
A Kyle Willian,
meu super-herói preferido.
"A única amizade que vale é a que nasceu sem razão."
Arthur Schendel
Eis o Cálice de Sangue da Deusa Cailleach
Três folhas caíram de um belo paraíso
Cristais idênticos, perdidos no mar
O Triskelion estará nas mãos
Daquele que as encontrar
E quem tiver sabedoria
Buscando com cuidado
Com honra acordará
O Antimago
CAPÍTULO I
NEVER TAKE CANDY FROM STRANGERS
Quando os negócios da família Lovehewitt começaram a desandar e eles decidiram se esconder em uma cidade pequena, ninguém imaginou que eles fossem parar em Happy Valley.
Já há algum tempo, a riqueza que possuíam havia começado a arrumar as malas para partir por tempo indeterminado, e todo o luxo e conforto que um dia ostentaram parecia prestes a desaparecer também.
Orgulhosos, jamais permaneceriam visíveis aos olhos daqueles que os conheciam. E para evitar o martírio que seria protagonizar os possíveis comentários, rodaram por meses em hotéis sofisticados e, durante o tormento que representou para eles a espera pelo falatório, fizeram parecer que a prosperidade ainda era a mesma de antes.
Stephen Lovehewitt era o primeiro que não conseguia disfarçar coisa alguma. Sempre que encontrava algum de seus velhos amigos da alta roda, um olhar triste e um sorriso de desespero denunciavam a funesta decadência. Sua mulher, que se chamava Shelley, não ligava para a atual limitação de recursos, mas às vezes acabava sorrindo meio melancólica também.
Deixar de ser rica não a preocupava de modo algum, mas não poderia assistir o marido enlouquecer por causa disso sem certa angústia.
É claro que a demência agressiva em que Stephen mergulhava cada vez mais profundamente, dia após dia, não girava em torno do dinheiro apenas. A causa real daquela caduquice tinha a ver com sua crença em uma antiga maldição, que ninguém compreendia, por que ele mesmo não explicava. Entretanto, se ninguém sabia a causa de tanto receio, qualquer um poderia ter certeza de que este era legítimo só de olhar para o velho Stephen. Toda vez que ele suspirava desamparado pelos cantos, seus calafrios eram, de fato, sinceros.
Não importava se a estória era mal contada, e muito menos se tinha fundamento ou não, ele acreditava absolutamente em tudo aquilo que temia.
Para completar, o lugar em que agora habitavam mostrava-se como uma espécie de ‘sinal dos tempos’ para um já amedrontado Sr. Lovehewitt. Longe da própria realidade, tudo que buscava era a paz dentro de sua mente; mas, segundo ele, não adiantaria em nada se esconder naquela cidade pequena se a única casa razoavelmente confortável que poderiam pagar fosse aquela ao lado do Orfanato São Miguel.
Praguejava sozinho, com antipatia e indignação, alcunhando todos os órfãos daquele lugar de meninos malditos e imprestáveis. Perdidos, que não poderiam trazer nenhuma sorte à sua vida ali.
No auge de sua cólera, proibiu o filho de sequer olhar na direção do orfanato, pois entendia que tal gesto só poderia representar um mau agouro para suas vidas.
O céu brilhava prateado certa manhã, e ninguém em Happy Valley percebeu quando um Honda Civic Branco, com luzes traseiras que incendiavam o caminho deixando um rastro vermelho, cruzou a densa neblina, deslizando pela estrada de asfalto limpo, enquanto as árvores verdes e orvalhadas ainda dormiam sob as nuvens.
Shelley todos os dias lembrava-se daquela cena ao fazer o café-da-manhã, em silêncio. Parecia que aquele pensamento sempre a hipnotizava.
Àquela altura, Arthur já havia mandado os homens de uma empresa de transportes de veículos levarem o seu carro até a nova casa, e agora viajava com os pais, depois de muito tempo dirigindo em carros separados. Eles ainda se encontravam a alguns quilômetros da placa que daria boas vindas à nova cidade, quando algo realmente singular aconteceu.
Uma libélula negra surgiu flutuando pela estrada, vibrando suas asas tão rapidamente que mal se podia enxergá-las. O inseto entrou pela janela do lado do motorista sem que Stephen percebesse, e saiu pelo outro, silenciosamente. Shelley, no entanto, fitou-a com precisão, enquanto um ruído de pavor se preparava em suas cordas vocais. Apesar do susto, ela tinha que se controlar.
Para a mulher, havia sido um choque observar aquela cena. Ela sabia exatamente o que aquilo queria dizer. Mesmo assim, sentiu-se abençoada por seu marido não ter percebido aquele misterioso sinal.
Shelley tinha certeza de que Stephen teria sofrido um ataque cardíaco na mesma hora, e uma vez que ele estivesse dirigindo, talvez todos estivessem mortos. Todos. Até seu filho, que vinha dormindo no banco de trás.
- Bom dia! - disse Arthur, enquanto abraçava Shelley, trazendo-a de volta ao café-da-manhã. A imagem da libélula negra dissipou-se de repente, sendo substituída pela imagem real de seu filho, ainda de cabelo assanhado, que acabara de acordar e estava ali na sua frente sorrindo.
O garoto parecia satisfeito por ter aquele momento matinal sozinho com sua mãe. E era assim toda vez que o sol anunciava um novo dia e ele podia partilhar do desjejum com ela. Agradecia aos céus pelo sono pesado de seu pai, ainda que este produzisse um ronco turbulento. Tomava uma vitamina de banana e comia pães assados, tudo feito pela virtuosa Shelley, com o maior prazer do mundo. Não fosse pelo pai maluco, ali seria um lar harmonioso.
Observando o céu azulado e as nuvens brancas se ajeitarem para receber o sol, pensou apenas em sua saúde e resolveu pôr um tênis para correr pela cidade. Adorava aquecer o corpo com uma corrida rápida.
Mesmo que não houvesse mais toda a fortuna de antes, Arthur Lovehewitt seria sempre igualzinho a um artista lindo e podre de rico.
Loiro, de cabelos macios e tão dourados quanto encaracolados, sua pele resplandecia pureza, enquanto seus olhos verdes só se permitiam ser comparados a esmeraldas virgens. Seus lábios deformados - por que há muitos anos dedicava-se ao estudo da música, tendo como instrumento principal o saxofone – também estavam ali só para torná-lo ainda mais belo. Era de total consentimento, entre os vizinhos que bajulavam os Lovehewitt, que qualquer garota que debutasse em Happy Valley naquele ano com certeza o aceitaria como Príncipe, se ele demonstrasse algum interesse em assumir tal papel.
Naquela manhã, usava um boné de cor púrpura, que exibia a letra ‘A’ bordada à mão por sua mãe em linha branca, igualzinho à letra ‘A’ da fonte Old English. A camisa pólo branca com gola e viés pretos se encarregaria de dizer a quem quer que passasse, por seu modelo e tecido, que aquele se tratava de um garoto abastado. A bermuda escura e roxa combinava com o boné, e o tênis preto e branco, com a camisa. Apesar de toda a combinação de cores, quando Arthur corria, ele nem se lembrava de sua roupa. A camada fina e brilhante de suor que escorria por sua pele recendia um aroma suave que lembrava chá verde, fazendo-o esquecer-se de tudo ao redor e sentir-se embriagado de si mesmo. Sua expressão dúbia confundiria qualquer um quanto ao seu temperamento. Por fora, Arthur parecia achar tudo completamente desprezível. Por dentro, era grato por cada pedaço do mundo ao seu redor. Exceto por uma coisa. Ou melhor, uma pessoa.
Quando voltou de sua corrida matinal, e teve que ouvir o pai iniciar um sermão sobre andar pela cidade ser inútil e muito perigoso para um garoto de dezesseis anos, sentiu seu sangue pulsando mais forte. A raiva o dominou por um instante, e Arthur bateu a porta com força atrás de si ~*
Todos os dias, Phillip Bristtow se acomodava em uma poltrona azul marinho, na varanda do Orfanato São Miguel, para ler.
Seus cabelos, negros como a noite e lisos demais, esvoaçavam-se dançando exultantes com a brisa leve que vinha do jardim, enquanto sua pele, branca como a neve, recebia o frio de modo hospitaleiro.
Geralmente, sentava-se ereto e ia escorregando aos poucos, até ficar quase deitado, lendo alguma coisa com seus olhos azuis sempre muito concentrados.
Não via a menor graça no jogo de cartas a que os meninos se entregavam quase todas as manhãs, embora morresse de rir com os berros, de derrota ou vitória, que os outros órfãos davam de vez em quando, levando tudo tão a sério.
- Bati! – clamou Diego naquele dia.
- Viado! – vociferou Pedro, indignado.
A maioria daqueles meninos mal sabia ler. E os que sabiam não pareciam se interessar por livro algum. Gritavam com qualquer coisa que acontecesse, e mesmo quando nada acontecia, inventavam piadas imorais para rir bem alto também. No começo, Phillip sentia dor de cabeça ao conviver com garotos tão estúpidos, mas com o tempo aprendeu a manter o bom humor com certa facilidade.
Passou a ver, em cada um, algo de positivo. Passou a não chamá-los mais de estúpidos, nem em pensamento, e se tornou amigo próximo de alguns deles. Fazia rir a muitos quando dizia rezar para jamais ser adotado.
Deus me livre, dizia ele, rindo também, e benzendo a si mesmo.
A única coisa que realmente o deixava péssimo, naquele lugar, era ter que ouvir comentários sobre a tragédia que o trouxera até ali. E estava acontecendo de novo. Três meninos, lá do outro lado da varanda, cochichavam teatralmente comovidos.
- A mãe dele, foi... Desapareceu...
- O navio ficou destruído...
- Ninguém mais viu...
Phillip preparou um texto repleto de grosserias em sua mente, a fim de reagir, mas o medo de provocar uma confusão ainda maior o impediu de expor tudo que pensava. Uma de suas sobrancelhas se arqueou, seus olhos azuis paralisaram-se de ódio, e seus lábios, grossos e rosados, contraíram-se e então se controlaram.
Tudo que desejava era que esquecessem os detalhes mal contados daquele terrível dia em que fora parar no Orfanato São Miguel, por que sinceramente, ele mesmo não se lembrava de quase nada. Todas as vezes que os garotos começavam a especular, sentia-se ainda pior por não se lembrar.
Phillip sabia que existiam algumas lacunas na sua memória. No entanto, se desse início a uma briga, estaria alimentando as nebulosas lembranças, e algo dentro dele preferia esquecer tudo, afinal.
De repente, um convite o acalmou.
- Quer ir ao centro? – Perguntou Miguel, o diretor do orfanato, que cuidava do garoto como se fosse seu filho de sangue.
- Claro! – respondeu Phillip, perguntando-se de onde Miguel havia surgido. Marcou o capítulo treze de seu livro com a carta do coringa, que não estava sendo usada no jogo, e correu para a garagem, pronto para ir ao centro da cidade. - Vai fazer o quê? – perguntou ao diretor, enquanto este se preparava para retirar o carro e acelerava o motor com força, sem sair do lugar.
- Comprar um vinho. O Sr. Lovehewitt me convidou para um almoço e vou tentar ser gentil.
- Tentar? Você é gentil sempre, Miguel...
- Eu procuro ser. E não tenho nada contra ele. Mas parece que o velho Stephen não gosta muito dessa estória de orfanato, sabe? – o Siena Prata estava saindo da garagem, forte, imperioso.
Phillip acomodou-se no banco do carona e pôs o cinto de segurança, sem ter a menor ideia de por que o novo morador de Happy Valley se incomodaria com o Orfanato São Miguel.
- Que mal podemos fazer a ele? – perguntou o garoto, olhando a si mesmo no retrovisor, checando a própria pele em busca de espinhas.
- Ele parece meio excêntrico mesmo. E a mulher dele já me contou alguma coisa sobre isso quando me convidou, ao telefone. De todo jeito, eu quero ouvir o que ele tem a dizer.
Depois de alguns minutos, chegaram ao centro pouco movimentado da pequena Happy Valley. O cenário oferecia a mesma calmaria de sempre: um homem vendendo churros a uma senhora com sua netinha, uma sorveteria cheia de adolescentes, algumas lojas de roupas com todo aquele entra-e-sai. A manhã perpetuamente programada daqueles cidadãos estava absolutamente normal. Até o ar estava impregnado de rotina.
Miguel foi a um supermercado comprar um vinho seco, e Phillip comprou Guaraná do Amazonas, em uma barraquinha que vendia produtos do Brasil. Era o único entre os garotos a quem Miguel concedia privilégios, mas apenas por que era o único que tinha coragem de pedir alguma coisa quando queria. E uma vez que seus desejos fossem todos muito simples, eram quase sempre atendidos.
Há três anos, aquele garoto batera à porta do Orfanato São Miguel, numa noite de tempestade impiedosa, e fora recebido por um homem muito cordial. Nunca teve que explicar de onde vinha, nem há quanto tempo era órfão, mas fora aceito ali como se já há algum tempo fosse esperado.
Graças a Deus, ele nunca perguntou nada, eu não me lembro de muita coisa mesmo. Embora agradecido pelo respeito à sua privacidade, para Phillip, havia algo de errado naquilo tudo. Parecia-lhe que Miguel conhecia sua estória perfeitamente, ele só não conseguia descobrir como. Ou lembrar como. Quando a curiosidade vinha visitar seu coração, Phillip a espantava prontamente, achando que seria melhor não remexer em seu passado.
Quando pensava naquele momento apavorante em que esquecera quase tudo sobre sua vida, lembrava-se claramente da chuva forte agoniando seu juízo, afligindo sua paciência a cada gota.
Ainda meio tonto, havia procurado um lugar para ficar e havia encontrado o orfanato facilmente. Tudo muito estranho. Mesmo assim, a despeito do que houvesse acontecido a ele ou a sua família antes daquela noite tenebrosa, acreditava que se estava no orfanato agora, talvez fosse exatamente por que seria melhor assim.
Na hora do almoço, Phillip já estava no refeitório, comendo na mesa ao lado de Madame Luzia, uma velha que organizava tudo, no que ela chamava de bagunça diária que é um lugar cheio de homens preguiçosos e vagabundos.
É claro que Miguel não era preguiçoso, nem vagabundo, mas para ela, todo o resto não passava de um bando de desocupados. É claro que à tarde, quando se sentava na varanda para bordar até escurecer, Madame Luzia findava fumando seu careta e então rapidamente relaxava, tratando todos os meninos como uma avozinha delicada o faria.
Devido ao maravilhoso e sonolento suco de maracujá que bebeu durante o almoço, Phillip adormeceu no calor da tarde e só acordou lá pelas quatro horas, ainda meio entorpecido.
Levantou-se, tomou um banho revigorante e correu para a cozinha.
Pôs mel, gelo, amendoim, pó de guaraná, tudo no copo de um liquidificador e bateu na potência mais forte que o motor possuía. Quando ficou pronto, encheu uma caneca gigante e bebeu extasiado seu Guaraná do Amazonas.
Era feliz, ainda que órfão ~*
De todas as coisas materiais que Arthur usufruíra nos tempos áureos da riqueza de seu pai, as que ele mais amava iriam continuar presentes em sua vida sem muito esforço.
Amava incondicionalmente toda a sua coleção de livros sobre amor, ciência e misticismo, seus CDs de rock, música eletrônica, e DVDs de shows e séries que havia acumulado através da adolescência. Com sorte, seu pai não iria vender seu computador também.
Pelo menos, no que diz respeito aos objetos que possuía, Arthur sentia-se pleno. Isso sem falar no carro. Um Ford Fusion Preto, perfeito. Não precisava de mais nada para ser um garoto materialmente realizado. Materialmente.
- O que diabo é isso? – perguntou Stephen, enfurecido, invadindo o quarto de Arthur, um tanto atrasado para a discussão.
- Um anime. – respondeu o garoto, mesmo não acreditando que seu pai se referisse ao desenho animado que estava assistindo no computador.
- Não se faça de idiota! Estou te perguntando ‘Que rebeldia é essa?’! Onde já se viu, bater a porta na minha cara? Onde é que o senhor está aprendendo essas coisas, hein, mocinho?
Um detalhe incrivelmente único na expressão facial de Arthur era o fato de ele conseguir transparecer um vazio gigantesco de sentimentos.
De repente, parecia não ouvir nada do que o pai dizia.
Seus olhos continuavam presos na tela do computador, seus lábios permaneciam calados e frios. Não parecia sentir nada.
Nem amor, nem ódio.
E assim ficaria até ver Stephen sair daquele que era o seu território.
- Desligue já isso! – ordenou o homem.
E Arthur obedeceu com a mesma expressão de nada em seu rosto jovial, apertando o botão suavemente e desligando o monitor.
Agiu assim como se para demonstrar que não fazia diferença alguma assistir ou não àquilo, a relação entre os dois nunca iria melhorar.
- Pronto? – perguntou, enojado daquela situação, cruzando os braços e os apoiando na mesinha do computador, fixando os olhos verdes na tela desligada.
- Olhe, eu vou lhe dizer uma coisa... – sibilou Stephen, quase espumando sua loucura pelo canto da boca. – Você acha que eu não sei? Que você anda lendo umas coisas estranhas aí, nesses livros? Eu estou sabendo. Você fica vendo esses negócios esquisitos na internet, rapaz... Você tome cuidado, viu? Ouça o que eu estou dizendo! É para o seu bem! – mas a raiva que explodia de suas palavras não demonstrava uma preocupação afetuosa que poderia ter em relação ao bem-estar de seu filho, e sim uma ojeriza que sentia a cada vez que olhava para ele. Como se o culpasse por alguma coisa, como se Arthur o decepcionasse de todas as formas possíveis, pelo mero fato de existir.
- Pai... – disse o menino, com um ar de tristeza contida.
De repente, Stephen voltou a si.
Seus olhos pediram clemência e ele saiu encolhido, arrependendo-se por exagerar daquela maneira. Abatido com os gritos monstruosos que dera, não sabia mais o que estava acontecendo. Gostaria de pedir perdão ao filho, de joelhos, se possível, mas nem sabia se podia.
Shelley apareceu no quarto de Arthur logo em seguida, para abraçar o filho, sem dizer palavra alguma. Havia ouvido toda a discussão, mas também não sabia mais o que fazer. O marido estava enlouquecendo, por causa da falta de dinheiro, por causa daquela estória de maldição.
E estava descontando tudo no filho.
O garoto permaneceu abraçado com sua mãe, calado, pensativo, e embora Shelley o conhecesse muito bem, jamais chegou a imaginar que, naquele exato momento, Arthur desejava secretamente a morte do pai ~*
Sentindo-se extremamente vivo, Phillip correu até o quarto com o copo do liquidificador em uma das mãos e uma caneca na outra.
- GAEL! – foi anunciando, todo agitado. – Vamos tomar guaraná! – convidou instantaneamente, e o amigo respondeu abrindo seu guarda-roupa de súbito e fazendo aparecer um copo para compartilhar da energética bebida com o colega de quarto.
Em poucos minutos, o copo do liquidificador já estava vazio, sendo jogado às pressas na pia, para ódio eterno de Madame Luzia, que lavava tudo. Ela ainda chutou um gatinho enquanto berrava uns desaforos.
O efeito do líquido lamacento era visível nas risadas dos garotos, que corriam frenéticos pelos corredores, com piso de madeira, do imenso orfanato.
- Vamos tomar banho na fonte! – sugeriu Gael, tirando a camisa e indo em direção ao jardim. Desapareceu deixando a porta aberta.
Phillip ainda parou para deliberar, mas quando se viu sozinho no corredor, irrompeu atrás do amigo, e chegando do lado de fora do orfanato, vislumbrou Gael já se banhando. E se alguém vê? E se Miguel pega a gente?
De todo jeito, o convite era tentador.
No meio do florido jardim do Orfanato São Miguel, uma fonte circular exibia, em seu centro, uma estátua enorme.
Um anjo esculpido em mármore branco, brandindo uma espada para o ar, com as tradicionais asas, enormes, abertas. Seus olhos, sem pupilas, fitavam o horizonte com um aspecto vitorioso e austero.
Apenas um de seus pés tocava as águas.
Finalmente, ao ver Gael se divertindo tanto, e posto que ninguém aparecesse ali mesmo, Phillip correu e pulou dentro da fonte, mergulhando e subindo de volta à superfície muitas vezes, sentindo-se cada vez melhor.
Em meio às gargalhadas, jogavam água um no outro e também para cima, sem importar-se com nada além da própria felicidade.
Foi então que Phillip percebeu que o sol estava a caminho do horizonte. O céu estava alaranjado e seu momento mágico estava prestes a acontecer.
Sem dizer nada, começou a escalar pela perna do anjo, apoiou o pé direito em suas vestes sagradas, passou a subir pelas costas e se equilibrou segurando os ombros da estátua.
Gael o imitou, subindo também, e os dois ficaram lá no topo, observando, entrelaçados, o céu colorido sobre a cidade, enquanto uma brisa suavemente fria os encontrava.
Deus, isso é perfeito.
Assim que entraram no orfanato, Phillip e Gael tomaram banho em um chuveiro de verdade e vestiram roupas limpas.
Ainda totalmente inspirado pela sensação de vigor que o invadira, Gael afinou o violão e sentou-se sobre as bordas da fonte do anjo, dedilhando uma melodia suave que parecia homenagear o pôr-do-sol.
Seus dedos brincavam com as cordas.
Phillip o acompanhou com um caderno e uma caneta, onde seus pensamentos podiam ser armazenados em forma de versos.
Apesar de o plano ser sempre o mesmo, quase nunca conseguia compor uma canção. Ficava apenas refletindo sobre as cores do céu e tudo que sentia ali. Mas Gael cantava e tocava com muita alegria as músicas que sabia de cor, e geralmente dois ou três órfãos ficavam admirados ao redor deles, enquanto os dois eram embebidos pelo som do violão e de suas vozes nada extraordinárias.
Naquela tarde, no meio da cantiga, Phillip percebeu algo diferente ~*
Quando Shelley terminou de pôr a mesa para o almoço, Arthur já havia tomado um banho, mas isso não havia ajudado a disfarçar os olhos de quem acabara de chorar.
O menino fora muito bem educado por seus pais a se comportar em um almoço para receber visitas e, no entanto, mais uma vez, ele não entendia as atitudes de seu pai e acabava tendo que se esforçar mais que o habitual para fingir uma alegre hospitalidade, quando o que sentia na verdade era uma confusão de pensamentos provocada pela situação em que se encontrava.
Se ele odeia tanto esse orfanato, por que convidar o diretor de lá para almoçar com a gente? Era tudo que Arthur queria saber. Mas, é óbvio, ele não iria perguntar. Mesmo por que, se perguntasse, seu pai poderia começar ‘tudo de novo’ e isso seria definitivamente horrível.
Seria discussão demais para um dia só.
Ao meio-dia, a campainha tocou docemente dentro da casa, como se pudesse sozinha acalmar as tensões que haviam visitado aquele lugar. Miguel surgiu sorridente quando Shelley abriu a porta e o recebeu.
- Bom dia, Sr. Armstrong! – disse ela, tentando se envolver na vibração positiva que aquele homem desconhecido trazia ao seu lar.
- Bom dia, Sra. Lovehewitt. Onde estão Stephen e Arthur? – perguntou delicado, como se adivinhasse a acalorada discussão entre pai e filho na última manhã.
- Já estão vindo. – e de repente, Stephen surgiu descendo as escadas, com uma saudação visivelmente falsa.
- Dr. Miguel Armstrong! Grande advogado e altruísta!
- Bom dia, Stephen. – respondeu Miguel, tentando ser mais amigável do que aquele homem, em seu formalismo desnecessário.
- Ah, mas vamos entrando. – disse Shelley, como se entendesse a situação de modo claro.
E então os vizinhos sentaram-se à mesa, para partilhar do almoço e Arthur Lovehewitt chegou por último, ainda de cabelos molhados.
Miguel foi bastante compreensivo com este atraso, por que de algum modo não se importava mesmo com isso, apesar ter ouvido o Sr. Lovehewitt acusar o gesto de ser uma terrível falta de educação.
Seria melhor se eu saísse daqui agora, e nunca mais voltasse...
Pensou Arthur, mas absorto em uma espécie de curiosidade, sentou-se quieto e ouviu tudo calado. Miguel parecia perceber que as esmeraldas haviam derramado cristais salgados mais cedo, mas tentou sorrir o mais que pôde, talvez para animar o menino. Mais do que com meros atrasos, estava acostumado a lidar com as tristezas da adolescência, no orfanato.
Lá pelas tantas, terminaram o almoço em paz e sentaram-se, Arthur, Miguel e Stephen, em frente à varanda do primeiro andar, em uma sala para descanso e começaram a beber o vinho que Miguel havia trazido.
Shelley lavava os pratos conformada com sua situação. Apenas rezava para que seu marido não desse vexame.
- Mas diga-me, Sr. Miguel... – começou Stephen de repente – O senhor já ouviu falar em maldições?
Não. De novo não.
Arthur não aguentava mais aquela estória maluca. Seu pai sempre puxava o assunto. Não que tivesse medo, mas detestava o fato de que Stephen jamais contasse a estória direito. Ficava especulando de maneira obscura, sem nunca contar a lenda completa.
- Rapaz, eu acredito sim, em energias positivas e negativas no Universo...
- Então! – bradou o velho - Ocorre, que... O senhor não acha inadequado lidar com desgraçados? Não acha perigoso se aproximar deles?
- Stephen, eu vejo de um modo diferente... Os meninos do orfanato são muito bem edu...
- Não, senhor. – interrompeu Stephen, triste de repente - Eu não me refiro aos órfãos. – e depois de um longo suspiro, disse - Falo de minha família.
O diretor ficou chocado.
Não sabia que a capacidade em falar sobre seus medos do Sr. Lovehewitt estivesse tão desenvolvida. Ao telefone, Shelley alertara que o marido não andava muito bem das ideias, mas Miguel esperava pelo menos uma tentativa de disfarce da parte do outro.
No entanto, ali estava o mal afamado Stephen Lovehewitt, desabafando sobre seus devaneios. A qualquer momento estaria, de fato, pedindo ajuda.
- Não há nada que eu possa fazer. Minha família está arruinada. Coisas terríveis estão para acontecer.
- Sinceramente, acho que você deve relaxar um pouco, homem. Talvez tudo isso que você teme, aconteça, mas talvez não. Ainda não aconteceu. Então, você pode mudar seu destino.
- Posso mudar meu destino. – concordou Arthur, que agora parecia ter voz e partilhar do vinho ali na sala de descanso.
- Cala a boca, menino! – E então o pai parecia biruta outra vez.
Miguel Armstrong nunca vira uma mudança de humor tão repentina.
Os olhos verdes de Stephen haviam perdido o ar humilde de quem sabe que está doente, para adquirir um aspecto sombrio de quem sabe de alguma coisa assustadora.
- Tá vendo, Sr. Armstrong? Seria melhor para mim, morar em seu orfanato. – disse Arthur rispidamente, para provocar. Levantou-se da mesa com uma náusea balançando dentro de seu estômago, ameaçando percorrer a sua garganta a qualquer momento. Para Stephen, foi a gota d’água.
- Esse menino tá bom de arrumar uma namorada! – reclamou o velho como se gritasse para Miguel ouvir, como se isso fosse resolver, como se o diretor pudesse resolver. O diretor do orfanato ainda pensou na hipótese de guardar o vinho, para evitar maiores constrangimentos, mas era tarde demais. O velho abraçou-se com a garrafa e bebeu tudo.
Logo Miguel se despediu e Shelley foi tomar banho. Stephen permaneceu adormecido na poltrona, ao lado do frasco vazio de vinho e Arthur decidiu tomar um ar. Adorava ficar do lado de fora daquela casa às vezes. Mas já estava escurecendo, então teria que se contentar com sua varanda.
Às vezes, fugia por um tempo, mas não, não era o caso.
Sozinho ali, Arthur deparou-se com uma cena que, para ele, foi cruelmente bela: alguns meninos do Orfanato São Miguel encontravam-se reunidos na borda de uma fonte, ouvindo um deles tocar violão e cantar, enquanto outro escrevia em um caderno. Certamente, poesia.
Ficou paralisado, e segurou-se com as duas mãos na varanda, apertando-a com desgosto e raiva. Como queria trocar de lugar com aqueles meninos. Eles pareciam ser tão felizes ali, naquela fonte. Tão livres para serem eles mesmos.
Melhor não ter pai nenhum, do que um pai com ideias demoníacas.
A inveja estava cortando sua garganta aos poucos quando, para seu espanto, o garoto que escrevia no caderno percebeu sua presença.
Era um garoto branco, de cabelos lisos e negros.
Cabelos lisos e negros como os que ele sempre quisera ter.
Os olhos azuis daquele menino misterioso perfuraram a alma de Arthur Lovehewitt tão profundamente que suas pupilas dilataram-se de modo repentino, enquanto seus próprios olhos se arregalaram alarmados.
Em pânico, correu. Trancou-se em seu quarto, e começou a preparar sua mochila. Preciso sair daqui imediatamente ~*
Se havia algo de peculiar no jovem Phillip Bristtow, isto era a sua visão perfeita. Armados de uma mira certeira, seus olhos jamais o iludiam. Mesmo de longe, podia discernir claramente o que via, e naquele dia, ele não se enganou. O tal garoto rico, filho dos Lovehewitt, estava na varanda de sua casa, e o havia encarado. Entrou para o jantar pensando na reação daquele estranho, fugindo de seu campo de visão como se carregasse alguma culpa.
E se ele não havia entendido muito bem tal atitude, ao terminar de tomar banho, entendeu menos ainda.
Saindo do banheiro comunitário só de toalha, ainda com os cabelos molhados, Phillip sentiu-se tentado a olhar pelas janelas do Orfanato, na direção da casa ao lado. O que viu foi digno de atenção.
Primeiro, o menino, loiro, de olhos verdes, estava olhando alguma coisa, sentado na varanda, sob a luz amarelada que pendia do teto, enquanto o céu escurecia seu azul e diminuía seus tons de laranja. Ou as luzes da mansão Lovehewitt haviam sido acesas cedo demais, ou o verão em Happy Valley ainda estava conseguindo prolongar os dias. Phillip então percebeu que havia uma mochila ao lado do menino. Uma mochila prestes a explodir de tão cheia.
O mais interessante, porém, veio depois disso. Arthur parecia falar sozinho, bem concentrado, sem sequer imaginar que estava sendo observado de longe. Phillip estava tentando ler o que aqueles lábios sussurravam.
Estava quase ouvindo. Parecia uma canção. Está tudo bem ~*
Então Arthur se levantou da varanda e apagou a luz do quarto, de modo que Phillip não pôde mais ver com precisão o que estava ocorrendo. Uma chama de luz ainda se materializou por uma abertura vertical, mas isso só denunciou que Arthur estava saindo daquele quarto, com a mochila nas costas.
O herdeiro dos Lovehewitt mantinha seu plano há muito tempo.
Sempre que se sentia ameaçado, de alguma forma, por qualquer coisa, ele fugia. Seu pai já havia perdido muito dinheiro com celulares que comprava para mantê-lo sempre à vista, mas Arthur simplesmente ignorava a tentativa de controle em sua vida. Já morava com os pais, já obedecia em tudo. Precisava desses momentos consigo mesmo. Os celulares terminavam todos jogados em alguma gaveta, desligados. Eu perdi, mentia.
Arrumou as malas em segundos, equipando-se com três mudas de roupa, muitos biscoitos de aveia e mel, algumas garrafinhas de água, uma caixa de leite, duas maçãs e um generoso pedaço de pizza gelada que ainda jazia em seu frigobar, do jantar. Se precisasse de mais comida, tinha o cartão de crédito.
Quando puxou um lençol do guarda roupa, viu um caderno bater com força no chão, deixando escorregar de suas páginas uma foto.
Olhou para si mesmo, loiro e de olhos verdes, com um sorriso aberto ao lado de uma amiga, nas cadeiras de uma sala de aula. Os longos caracóis castanhos dela estavam arrumados todos para o mesmo lado. Ambos sorridentes, ambos de óculos de leitura. Blair faz tanta falta. A única amiga de quem lembrava tinha quase a sua idade, e já morava na Dinamarca com um cara chamado Asger. Parou um pouco, pensando, e guardou a recordação.
Abrindo o caderno outra vez, observou várias fotos, todas marcando alguma página, algum de seus escritos. Entretanto, um espaço lá no fim das folhas, não tinha foto alguma.
Era justamente na página onde havia um poema inacabado.
Arthur sentou-se na varanda sozinho e começou a lê-lo para si mesmo.
Vá dormir
Está tudo bem
O mundo é noite
O amor já vem
Acordar-te quando
O dia amanhecer
Ficou repetindo as palavras daquele texto que nunca completara como um mantra, que simbolizava seus sentimentos. Parecia uma espécie de premonição.
Guardou o caderno na mochila, levantou-se e apagando a luz do quarto, saiu sem ser notado. Sozinho, como gostaria de estar. Só sentiria falta da mãe.
Shelley já havia carregado o marido para a cama, onde este dormia e ela ainda lia um livro, com o abajur ligado.
Saindo pela porta da frente, Arthur pegou o celular e mandou uma mensagem para ela.
Vou dar uma volta. Preciso respirar. Te amo.
Ela atendeu ao celular assim que este tocou o sinal de mensagem e, lendo o que Arthur escrevera, levantou um pouco a cabeça para ver através da janela exatamente o que achava que veria.
Seu filho estava saindo no Ford Fusion Preto e silencioso.
Observou o marido desacordado e, guardando o livro, deitou-se na cama. Digitou rapidamente. Tome cuidado, meu filho. Mamãe te ama.
Apagou o abajur e dormiu tranqüila. Não havia motivos para se preocupar com Arthur. Ele sempre sabia como se cuidar ~*
A noite inteira, Phillip tentou imaginar o que aquele garoto estaria lendo naquele caderno. Ainda, tentou imaginar se aquele cartão, branco nas costas, seria um cartão ou uma foto.
Ouviu o som de um carro dando partida, e olhou pela janela de seu quarto, enquanto o carro negro sumia na pista.
A visão muito eficaz de Phillip permitiu-lhe saber tudo que o outro estava fazendo, mas não podia ajudá-lo a descobrir os motivos que o levavam a sair às sete horas da noite, por uma cidade onde ele não conhecia ninguém além de seus pais. Além disso, havia uma mochila cheia de coisas.
Ele só pode estar fugindo!
Era confuso para Phillip, enquanto órfão, assistir um filho que abandona o lar dos pais. O garoto foi até a cozinha, tomou água e deitou-se, pensando onde aquele garoto rico poderia ter ido. Por que certamente ele deveria ter condições de pagar um bom lugar.
Por volta da meia-noite, a curiosidade serpenteou o coração de Phillip, e dando-lhe um bote ágil, fez com que se levantasse na ponta dos pés e fosse à varanda do Orfanato, espiar, em busca de alguma informação.
Para seu espanto, deu para ver alguma coisa sim.
Arthur Lovehewitt não havia se hospedado em hotel nenhum.
Um carro preto estava estacionado, bem longe dali, mas ainda ao alcance de sua visão.
O Ford Fusion estava parado no meio da floresta, mas Phillip pôde ver a luz ligada dentro dele.
O garoto loiro estava entretido, mexendo no celular, sozinho.
Minha nossa...
Não foi a coisa mais bizarra do mundo, mas Phillip ficou sem entender.
De todo jeito, decidiu que cair naquela tentativa de desvendar um enigma o faria ficar acordado por mais tempo do que deveria.
Então se acomodou embaixo dos lençóis e procurou dormir ~*
Os raios de sol proclamaram o surgimento de uma manhã esplêndida, de céu azul e nuvens intensamente cintilantes.
A luz do dia queimou os olhos verdes de Arthur quando ele acordou assustado dentro do carro, com uma voz grave falando perto dele e um tamborilar de dedos no vidro da porta, que estava fechado quase completamente.
Ele se afastou da janelinha por instinto, mas então considerou o quanto aquela situação não oferecia riscos e abriu o vidro, ainda meio sonolento.
- Acorde aí, menino. – disse o garoto, sorrindo simpático, com o par de olhos azuis demonstrando sua curiosidade. Arthur parecia encabulado. - Algum problema com o seu quarto?
Arthur apertou o botão e o vidro deslizou para baixo.
- Não. Meu quarto está em perfeitas condições. – falou polidamente.
- Então, o que te fez vir dormir aqui, no meio do nada? – perguntou Phillip.
- E desde quando importa pra você onde eu durmo?
- Desde ontem.
A resposta súbita assustou Arthur, que piscou os olhos aturdido, e permaneceu calado.
- Eu vi você olhando pra mim. – continuou Phillip.
- Sério? Sua visão deve ser realmente extraordinária. – o sarcasmo brotando nos lábios do garoto rico.
- Minha visão? Como você sabe? – disse Phillip, fantasioso em todas as suas expressões.
- Escuta. – Arthur tomou um ar sério – O que é que você quer aqui, hein?
- Eu? Você quer saber o que eu quero? – Phillip ficou sério também – Eu quero entender o que te deixa tão mal aqui, nessa cidade. – Tomou o cuidado de não usar as palavras ‘Happy Valley’ com o garoto que não parecia feliz ali. Arthur podia estar sendo irônico, mas Phillip costumava falar de modo bem claro. – Quero ouvir da sua boca, por que um garoto que tem tudo parece tão triste aqui... E se fosse possível, gostaria de poder ajudar.
Arthur olhou com desconfiança para o estranho órfão que vira no dia anterior, escrevendo em um caderno na fonte. Ele escreve. O garoto deveria ser compreensivo. Valia à pena tentar.
Começando a escolher as palavras com cuidado, disse.
- O que me deixa mal? – Era tão difícil ser sincero com um completo estranho, mas falar com aquele menino em sua frente parecia ser uma boa maneira de começar a mudar tudo. De repente, Arthur se soltou. Saiu do carro, encostando-se na porta do motorista e falou sem medo. – Meu pai.
- Seu pai? Ele é muito chato com você? – Phillip pareceu preocupado.
- Chato? Ele está ficando louco! – Arthur fitou o horizonte, envergonhado, como se tivesse medo de alguém ouvir. Alguém além daquele garoto em quem gostaria de confiar. – Louco. Não diz mais coisa com coisa. Implica demais, sabe? Eu não agüento...
- Qual o seu nome? – a pergunta expulsou o clima tenso da conversa.
- Arthur Lovehewitt – essa foi fácil. Ele sempre dizia, com a boca cheia de orgulho, o próprio nome. – E o seu? – certificou-se de que estava sendo educado.
- Phillip Bristtow. – agora era Phillip quem estava tímido. Não fazia muito sentido dizer seu sobrenome. Não sabia nada sobre seus pais, nem se esse era realmente o nome deles. - Mas... Deixe-me ver se eu entendi... Você está com raiva do seu pai por que...
- Não, não é isso! – interrompeu - É que ele acha que somos amaldiçoados. – Arthur esperou um segundo para continuar, como se o peso daquela palavra machucasse sua consciência de alguma forma. - Acredita demais em espíritos malignos. Eu não sinto vontade de ficar perto dele. Está maluco.
- Por isso você fugiu... – Phillip estava começando a entender – Mas vai ser pra sempre? Você não vai mais voltar?
- Eu vou, sim. Eu sempre volto.
- E o que decide quando você volta? – perguntou Phillip.
- O tempo. Eu fico pensando, em algum lugar solitário, depois visito minha casa sem meus pais perceberem quando preciso pegar alguma coisa... Até sentir que posso voltar de verdade.
- E nessas fugas? Alguém te ajuda? Existe algum amigo que guarda seus segredos? – Phillip estava sondando o terreno para fazer um convite à aventura.
- Até agora, não. – De repente Arthur percebeu que a não ser por sua mãe, estava sozinho no mundo. – Por quê? Você acha que pode me ajudar?
- Escute. – Phillip falou ponderadamente – Eu não quero parecer um candidato à melhor amigo, mas a gente pode conversar mais vezes. Posso tentar entender seus problemas. Podemos pensar num jeito de resolver isso, Arthur. Juntos, vamos encontrar alguma solução... O mais importante agora, caso você realmente esteja fugindo de tudo, é que eu acho que já sei onde você pode ficar escondido ~*
CAPÍTULO II
THAT BOY IS A MONSTER
Shelley acordou calmamente, levantando-se aos poucos para absorver aquela atmosfera encantadora de sol radiante e agradavelmente quente que preenchia seu quarto.
Da janela, observou a rua calma e vazia que terminava com sua casa de um lado e o Orfanato São Miguel do outro e, por um momento, pensou se Arthur teria se escondido ali dessa vez. Ele sempre arranjava um refúgio, e o pai sempre descobria tudo.
Arthur não teria tanta audácia, pensou Shelley. E, de fato, parecia improvável, e de muito atrevimento, se esconder justamente em um lugar que seu pai detestava. Ou teria?
De todo jeito, esperava que seu filho estivesse aproveitando o dia, sem o pai por perto. Naquela manhã, ele poderia fazer o que quiser, ir aonde desejasse, ninguém o atrapalharia. Ela sentia-se feliz pela liberdade momentânea do filho.
No seu caso, não faria a vitamina de banana e não assaria os pães para Arthur. Ao invés disso, teria que enfrentar sozinha as esquisitices do marido.
O início da manhã foi realmente de muita placidez. O velho roncou alto até por volta das oito horas e Shelley cuidou de sentir-se bem, sozinha. Preparou o próprio café, fez as unhas, leu alguns capítulos de um livro espírita e até viu televisão. Tomou banho e escovou muito bem os cabelos negros, prestando atenção no reflexo que via no espelho.
A mulher que olhava de volta sempre pareceria uma garota. A pele branca permanecia bem cuidada, os olhos grandes ainda estavam cheios de vida, e os dentes continuavam todos perfeitamente saudáveis. Shelley sorriu quando teve esse pensamento. Mas não passava da mais pura verdade: dentro daquele rosto cansado de carregar problemas, havia uma pessoa que queria ser feliz, apenas.
A Shelley que um dia havia se apaixonado por Stephen Lovehewitt, e que havia abandonado a família para realizar o sonho de ser uma dona de casa, uma mãe de família, era com certeza absoluta uma garota cheia de sonhos e planos.
Nunca imaginara que seu marido teria, depois, tantos problemas psicológicos. Pelo contrário, uma das causas essenciais que levaram Shelley a se envolver e a se apaixonar irremediavelmente por Stephen havia sido seu temperamento ao mesmo tempo alegre e centrado. Além do fato de ele ser loiro e ter os olhos verdes, é claro.
Tudo começou no dia em que ela soltou a bomba.
- Stephen, meu amor, eu estou grávida. – disse ela, sem esconder a sua felicidade.
- É o quê?
Shelley jamais conseguiria esquecer o peso da decepção dentro de si mesma, quando viu a expressão de seu marido mudar de repente. Ele não parecia nenhum pouco feliz. Seus olhos indicavam repulsa, medo.
A partir daí, as coisas mudaram. É claro que ele tentou ser educado, ser gentil com sua mulher, mas Shelley sempre soube que havia algo errado. Stephen não havia gostado daquela gravidez, pelo menos não completamente.
Quando o filho nasceu, o pai se empolgou por que o bebê era a sua cara e até escolheu o nome: Arthur. Educou o garotinho com amor, mas desde então passou a ser bonzinho apenas às vezes, e louco com bastante freqüência.
No aniversário de quatro anos, Shelley viu Stephen apertar com força a mãozinha do pequeno Arthur. Aos treze, o menino fugiu pela primeira vez e a surra foi oficial, com um cinto.
Shelley sempre fora contra aquela violência absurda, mas não conseguia odiar o marido. Achava que a solução era mesmo Arthur fugir e seguir sua vida distante, e pensava que o visitaria às escondidas, se fosse o caso, por que o amava de verdade. Só não poderia abandonar Stephen. Ele estava doente, precisava mais dela, só tinha a ela. Não, ela não o abandonaria.
Com o tempo, quando os negócios começaram a desandar, e eles já haviam rodado o mundo inteiro, Stephen começou com a estória da maldição. Shelley não fazia ideia se ele estava enlouquecendo de uma vez por todas ao inventar aquilo ou se sempre havia acreditado naquela estória em segredo. Ultimamente, quando se lembrava do semblante de Stephen ao ouvir a notícia da gravidez, Shelley sentia uma pontada de desconfiança. Talvez ele realmente acreditasse que sua família houvesse sido amaldiçoada. Por isso seu medo em ter um filho, a preocupação de estar dando continuidade à maldição. Mas Arthur é tão saudável, pensava ela, e abandonava a ideia.
- Shelley? – disse a voz grossa, enquanto o homem se desvencilhava dos lençóis e calçava as sandálias. A mulher, sentada na beira da cama, perdida em pensamentos, virou-se e encarou o marido paciente.
- Oi?
- Onde está Arthur? – a pergunta sobrevoou o espaço entre eles em segundos e atingiu Shelley, que se viu abismada com a intuição certeira de seu marido. Perplexa, apenas deu de ombros. – Ele fugiu outra vez não foi?
Algo dentro de Shelley pareceu contagiar-se com o medo de Stephen. Ele parecia falar sério dessa vez, não era mais aquele maluco. Parecia o velho Stephen, embora demasiadamente preocupado. Sua voz quase se embargava, a cada palavra.
- Precisamos encontrá-lo. Agora! – e saiu correndo em busca do telefone ~*

Olá, Leonardo.
ResponderExcluirSou Sidney Andrade, estudante de Comunicação Social da UEPB. Estou executando meu trabalho de conclusão de curso e ele tem como tema o uso de blogs para a divulgação do novo escritor do século 21. Por acaso você já tem livro publicado, ou, se não tem, pretende publicar algum livro um dia? Se uma dessas duas condições for o seu caso, eu pergunto se você gostaria de fazer parte da minha pesquisa, eu vou analisar o uso que os escritores fazem de seus blogs.
Meu contato é sidneyandrade23@hotmail.com, ou pode deixar um comentário no meu blog mesmo.
Desde já, agradeço a atenção.