
Dois dados de pelúcia vermelhos balançavam-se de modo suave, pendurados no retrovisor central do Audi A4 preto, que seguia flutuando sobre a estrada fria de asfalto cinzento.
O tempo, é claro, estava fechado. Uma luz pálida e azul preenchia a cena. As quatro portas estavam fechadas, e o ar condicionado ligado. Não dava para observar os detalhes das árvores na paisagem.
Isolado do resto do mundo, aquele carro parecia apreciar a tristeza da solidão. Era aquele garoto dirigindo. Era ele quem gostava de ficar sozinho.
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Arthur Lovehewitt dizia que tinha 16 anos.
Fora excepcionalmente abençoado por todos os deuses da beleza. Não importava o gosto pessoal de quem o observasse, qualquer um concordaria em dizer que seu rosto era incrivelmente harmonioso e a boa estrutura de seu corpo era inegável. Era lindo, e lembrava muito um anjo inocente. Um desses loiros, que tem os olhos verdes como esmeraldas virgens e um sorriso contagiante. Sua boca merecia explanação específica. Era deformada, mas nunca no sentido ruim da palavra. É que Arthur adorava instrumentos de sopro e isso, com o passar dos anos, alterou o formato dos seus lábios. Ficou ainda mais bonito. Apenas isso.
Seguia dirigindo de modo seguro, atento, concentrado na situação.
Talvez por que esta tivesse significado exato dentro da sua alma.
A vida, segundo Arthur, era uma bela paisagem, que no seu caso era coberta por uma densa
neblina.-
Era rico, sua família permanecia estruturada há séculos e tradicionalmente ele era o herdeiro. No entanto, a despeito da vontade e da irritante insistência de seu pai, ele não tinha planos de se casar e muito menos de dar continuidade ao império Lovehewitt. A ideia para Arthur era patética e inconcebível.
Foi por isso que aos 13 anos ele saiu de casa e foi estudar em um colégio interno masculino. Tentou ser feliz por lá, mas os garotos o evitavam por ele, mesmo sem querer, destruir a auto-estima de qualquer um que cruzasse seu caminho. Era poderoso demais, e sua aparência inocente e quieta não raro era confundida com a extrema arrogância. Era um infeliz.
Agora, na manhã de sábado em que Arthur dirigia a caminho de São Fernando, ele voltava para casa.
E, devido às cartas que recebera de seus pais, já sabia de tudo.
Mas
saber de tudo não o preparava. O medo arrancava seus neurônios com as próprias mãos.
Arthur não conseguia fingir a felicidade que seus pais esperavam que ele fingisse. Não iria chegar ao lugar que ele mais odiava e sorrir.
O abraço em sua mãe era de fato sincero. Ele sempre a amou, por que ela o enxergava e o amava de verdade também. Ela percebia o que ele sentia, e sempre o entendia. Fazia de tudo para ver o filho feliz, até o ponto em que o marido controlava a situação e ela era diminuída. Portanto, era o pai a quem ele odiava realmente.
O Sr. Lovehewitt tinha uma loja de produtos para construção e Arthur não conseguia se ver administrando ou sequer visitando aquele lugar. Os planos de seu pai, porém, eram irrefutáveis. Já havia o nome de Arthur na plaquinha do escritório, e isso era só o primeiro passo.
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Havia ainda o casamento.
Pois era costume entre os Lovehewitt casar primos. Para que a família mantivesse sempre o mesmo sangue. E, obviamente, já havia a prima escolhida para desposar o pobre coitado.
Andrea Feather, sendo uma Lovehewitt emancipada que mudara o seu sobrenome por razões pessoais, ocasionalmente visitava a casa de Arthur e compartilhava segredos com seus pais. Apesar das atitudes modernas de Andrea, ela conseguia dobrar o juízo do Sr. e da Sra. Lovehewitt. Assim, eles eram completamente convencidos de que ela era a melhor escolha para o garoto. Arthur tinha certeza de que tudo já estava sendo programado sem seu consentimento, mas ele não sabia até que ponto esses planos já haviam chegado.
Então foi, de certo, uma surpresa o que aconteceu naquela manhã.
Quando o sol raiou amarelado no céu, iluminando ainda mais seu cabelo dourado e os pelinhos loiros do seu braço, Arthur Lovehewitt chegou à cidade de São Fernando, e estacionou o carro em frente a luxuosa mansão de seus pais.
Ele relaxou todo o corpo, dolorido da longa viagem, e caiu exausto sobre a direção.
Estava ofegando de repente, cansado, triste.
Caíram algumas lágrimas de suas esmeraldas.
Estava perdido.
Teve certeza disso quando, armando-se da coragem trêmula de seus dedos, discou o número de casa, no celular. Seu pai atendeu categórico.
- Já está chegando, meu filho? - Arthur odiava aquela voz grossa e asquerosa.
- Cheguei. - Disse ele, claramente melancólico.
Mas o pai fingiu, como era habitual, não perceber tal melancolia e fez-se surgir sorridente na porta, com a mulher e a sobrinha.