quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Quem você vê?

Imagine-se trabalhando um dia inteiro. É sério. Ouvindo sua patroa reclamar a saúde da juventude, indo buscar o café, abrindo e fechando gavetas com documentos, e alguém monopolizando sua cabeça. Pare no café da tarde e concentre-se nessa pessoa.
Quem você vê?

Agora encontre um amigo após o trabalho e suba na moto dele para que ele te leve como carona. Imagine-se chegando à natureza de sua cidade, longe de tudo. Você percebe que o sol está se pondo, e o céu está multicolorido. O vento mexe nos seus cabelos, e passam frios pela nuca, sem pedir permissão.
.
Judas sentou-se relaxando todo o corpo em uma pedra na floresta, que ele chamava de 'O sofá'. Estávamos em um ponto muito alto de São Fernando, de onde era possível ver toda a cidade entardecer. Olhando na direção da Serra de São Bernardo, a noite espiava sobre o horizonte. Mas olhando para São Fernando, ainda era sol, ainda era dourado. Eu me sentei por perto e entreguei o violão a Judas. Ele dedilhou. Foi massa. Esse conto pode ser ou parecer pequeno, mas o susto foi inversalmente proporcional. Eu estava olhando para a cidade, conversando com ele, só isso. Nada de incrível podia acontecer ali além da beleza que aquele momento guardava. O céu multicolorido, os olhos de Judas Trapaceiro brilhando seu cárater castanho, mas os pêlos do seu braço eram dourados no sol. O vento balançava seus cabelos e sua barba nunca se mexia. Na cidade, uma penumbra já fazia destacar as luzes dos postes e das casas mais chiques. Dava para ver a casa de Arthur Lovehewitt bem pequena.
Mas era só me concentrar. Minha visão se aproximaria da varanda e eu poderia ver com perfeição o símbolo musical desenhado na campainha. Deu vontade de tocar e sair correndo. Estava envolvido na música que Judas tocava, cantando baixinho, quando olhei para lá. E foquei.
Ele estava olhando para mim.
Arthur Lovehewitt estava lá. Paralisado olhando para mim.
Só havia a fonte do anjo entre nós, mas eu conseguia vê-lo. Seus olhos verdes estavam olhando dentro dos meus olhos, com o ar de quem está planejando matar. Como dizem? Frio e calculista.
~*

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

begin


It's not a second
7 seconds away
Just as long as I stay
I'll be waiting




Enquanto Davison se revira nos lençóis na parte de cima da beliche, eu escrevo o que aconteceu. Eu só trabalhei metade do tempo previsto na cafeteria, e Miguel fez uma reunião com todos os novatos. Coisa simples, na cozinha mesmo. Fiquei ao seu lado, por ser um dos mais velhos, mas não pude dizer nada. Eu vi um pouco de tv para me atualizar na novela e saí um pouco, para caminhar pelo orfanato. Encontrei Judas Trapaceiro. O sol estava preparando-se para mais um pôr-do-sol a ser observado.
Ele estava equipado para o frio da noite. O casaco com capuz, a barba por fazer. Seus olhos brilhavam no mesmo tom castanho de toda sua pele. Estava acendendo um cigarro enquanto vinha ao meu encontro.
- Digae, meu irmão, beleza?
- Digae, Judas.
E como não era de perder tempo, perguntou sem rodeios.
- Tá afim de invadir a casa dos ricão?
- É o quê? - perguntei pasmo.
Mas Judas sempre tinha a explicação.
- Rapaz, é por que Miguel pediu pra dar uma limpada na casa, que o filho deles chegou, pô. Miguel é amigo deles. Bora, macho.
Eu não tinha a menor ideia se havia algo melhor a se fazer naquele momento. Hesitei um pouco, olhei para o orfanato, olhei para ele, e decidi.
- Eu vou, cê vai limpar o quê lá?
- A piscina.
Caminhamos pela calçada até a mansão, que ainda imperava com o brilho dos raios de sol refletidos em sua textura. Judas tocou a campainha, como se estivesse preparando-se para bater em alguém. Completamente firme, parecia um cavalo.
Uma empregada do Sr. Lovehewitt atendeu meio sem graça. Era meio moça, e só a presença de Judas já era o bastante para deixá-la impressionada. Mais que isso, ela ficava paralisada.
Mas depois da permissão para entrar, Judas adentrou como se ela não estivesse na cena. Retribuiu a admiração em segredo. Olhou de um modo tão seguramente discreto que a pobre coitada nem percebeu.
O jardim na casa era perfeito. Muito verde, com pequenas laranjeiras cheias de flores brancas, physalis laranjas caídas pelo chão e uns canteiros com gardênias brancas também. Sob a luz daquela tarde, a piscina parecia uma fonte do Olimpo.
Em frente à piscina, ele começou a trabalhar, enquanto eu apenas rodeava a cena, de braços cruzados, sentindo o frio do entardecer, e me aquecendo dentro do casaco preto. Em minutos ele estava lá só de calção, com cloro e tudo nas mãos.
- Tem as manhas de pular aqui? - perguntou ele, de dentro da piscina, limpando bem as bordas com uma espécie de esfregão. Juro que a tentação de cair naquela água azul me fez pensar que eu iria pular.
- Vontade eu tenho, coragem, não. - me contive. Agora era só negociar com Judas, que sempre pedia para eu aproveitar todos os momentos.
- Relaxe, omi, venha. - Era difícil dizer não. Mas eu estava na casa de estranhos, não ia sair todo molhado. Eu gostaria, mas não podia. E quando a retórica não funciona, o jeito é mudar de assunto.
- Judas, sabe o que seu horóscopo disse hoje?
- Não, né?
- 'Nos bastidores, seu trabalho vai fluir e haverá motivação para alcançar suas metas'.
- Massa. - Ele entendeu a piada. Judas dizia isso e eu ria do modo como ele falava. Era sempre divertido.
De repente, o garoto loiro, filho do Sr. Lovehewitt surgiu na varanda.
O sol estava brilhando dourado sobre o menino. Ele não me viu de cara. Estava observando calmamente o pôr-do-sol. Até que eu percebi, e ele disfarçou.
Seus olhos verdes pareciam transparentes, deixando os raios atravessarem direto para a alma. Vi de longe, com minha visão aguçada, a luz brilhando azul dentro do bolso da bermuda dele.
Ele atendeu o celular, e voltou para dentro de casa.

domingo, 16 de agosto de 2009

Muitos Encontros

Storge
É o nome da divindade grega da amizade. Por isso, quem tende a ter esse estilo de amor valoriza a confiança mútua, o entrosamento e os projetos compartilhados. O romance começa de maneira tão gradual que os parceiros nem sabem dizer quando exatamente. A atração física não é o principal. Os namorados-amigos não tendem a ter relacionamentos calorosos, mas sim tranqüilos e afetuosos. Preferem cativar a seduzir. E, em geral, mantêm ligações bastante duradouras e estáveis. O que conta é a confiança mútua e os valores compartilhados. Os amantes do tipo storge revelam satisfação com a vida afetiva. Acontece geralmente entre grandes amigos. Normalmente os casais com este tipo de amor conhecem muito bem um ao outro.

________________Renascer ~*

Como todos os dias de minha tediosa vida, nos últimos sete anos, eu acordei assim que o céu se preparou para receber a luz do sol. Sinceramente, eu prefiro a escuridão da noite e o brilho suavemente doce da lua. No entanto, a vida recomeça a cada dia, então eu acordo e levanto para a tortura diária que é morar em um mundo a que não pertenço, de jeito nenhum.
Eu acordei com o som do pequeno rádio ao lado da minha cama, programado sistematicamente para soar as músicas aleatórias da estação local toda vez que o relógio marca as cinco horas. Não há muito a fazer uma hora dessas se você mora com seus pais, ou tem uma empregada. Aqui no Orfanato São Miguel, eu tenho o que fazer.
Sempre passo pelos corredores quando ainda está meio escuro, onde a luz das velas azuis ainda possuem graça. E enquanto todos dormem, eu vou me arrumar para o trabalho. Todos menos Miguel, que uma hora dessas já está no escritório.
As crianças daqui são muito felizes. E eu também o sou, graças a companhia delas e do próprio Miguel Armstrong. E até gosto de trabalhar. Mas quando a gente acorda, o mal humor dá as caras. Sempre. Ou pelo menos, dava, até hoje. Por que hoje algo aconteceu. Hoje, eu vi um carro vindo pela estrada.
Eu tinha acabado de tomar banho, e tomava café numa caneca azul enquanto fitava, através da janela, o imenso nada. O Orfanato São Miguel fica no fim de São Fernando. Dá para ver a estrada. Principalmente para mim, sendo um elfo e tendo, por isso, a visão aguçada. É extraordinário, mas é real. Eu vejo as coisas com precisão, mesmo se estiverem a quilômetros de distância. Tenho meu limite, mas o alcance é longo. E eu vi o carro brilhando negro na neblina. Vi o garoto dirigindo, meio triste, e terminei meu café.
Quando armei minha mochila nas costas e cruzei o portão do orfanato, constatei o que pensava. O garoto loiro havia estacionado o carro em frente a mansão do Sr. Lovehewitt. Provavelmente seu filho, que não morava ali. Uma visita, talvez. Ou não...
Passei pela calçada deles, enquanto subia para o centro, e o vi descer do carro, carregando uma bela mala. Seus pais e uma garota loira estavam vindo ao seu encontro, mas ele me viu passar. Era loiro, de uma claridade que estabelecia um acordo com o céu cinzento, o fazia refletir, mas presumi que ficaria dourado se o sol já ajudasse. Usava uma camisa pólo branca, mas a gola e os viés nas mangas resplandeciam um preto igual ao do carro. O boné era púrpura e ostentava um poderoso A, escrito na mesma fonte do título no jornal The New York Times. Seus olhos eram verdes, pareciam esmeraldas virgens.
Ele olhou para mim e pareceu assustado.
Como se possuísse o medo que impulsiona o instinto.
Como se desejasse me matar com as próprias mão, por adrenalina, por pavor.
Eu desviei meu olhar, para apagar o pânico que havia dentro dele.
Mas foi assim que eu vi Arthur, pela primeira vez na minha vida.

sábado, 15 de agosto de 2009

O presente de Devon


Phillip, Andrea e Judas saíram juntos pelo glorioso jardim da mansão de Hilary Dickson, a caminho dos dormitórios do Instituto HD.
- Tchau, pessoas! – disse a diretora, na varanda de sua casa, de um modo mais jovial e amigável do que todos estavam acostumados ou esperavam. Lá de cima, ela parecia um anjo acenando diretamente do céu.
- Tchau, diretora. – responderam eles enquanto saíam.

- Phillip, eu te amo! – alguma garota histérica se fez ouvir entre os alunos.
Era Sydney, com seus cabelos vermelhos, e sua voz rouca.
- Phillip Bristtow! – ela berrava sozinha. – Ele nos salvou! Vocês não veem?
- Você agora é famoso, meu irmão. - comentou Judas Trapaceiro, sorrindo tímido.
- Ainda sou Phillip Bristtow.
- Fique quieta, Sydney, ele não gosta disso. – Devon a aconselhou. E sorriu suavemente para Phillip enquanto ele passava.
Phillip retribuiu o sorriso, mas gostaria de ter dado um abraço também. Lembrou a si mesmo, mais uma vez, que Devon só queria ajudar, e ainda havia o presente. Não deveria tê-lo julgado. Havia cometido um erro.
Dimitri estava na forma humana, esperando por eles no meio do jardim que levava aos dormitórios, em seu habitual cardigã preto.
- Vocês estão se sentindo bem, né?
- Muito bem - respondeu Phillip. - Obrigado pelo Guaraná do Amazonas e pelas dicas, Dimitri.
- Ah, de nada, cara.
- Acho que vou passar o fim de semana na Noruega – sugeriu Andrea, e Dimitri jamais recusaria a ideia.
Ainda no jardim, Miguel Armstrong apareceu. Com seus olhos cor de mel e sua barba por fazer, ainda parecendo triste com a ausência de Phillip. É claro que ver o seu garoto ali, bem e em paz, o confortava, mas Miguel não poderia deixar de sentir falta das longas conversas com seu filho. Atrás dele, achava-se Jean e Harrison, que pareciam saber de tudo que havia acontecido.
- Você deve ser o pai do Phillip! - falou Dimitri.
- Por assim dizer - respondeu Miguel – Venha cá, Phillip, me dê logo um abraço, por favor. - E o abraçou.
O elfo conversou com seus amigos, mas eles logo tiveram que partir no carro do Dr. Armstrong, que continuava a cuidar do Orfanato São Miguel, sendo o pai de todos aqueles adolescentes.
Nesse momento, o pôr-do-sol estava cinzento, e as árvores balançavam suas folhas verdes em uma dança fria e silenciosa. A brisa de um fim de tarde verde e cinzento.

Phillip seguiu com Andrea, Judas e Dimitri em frente à escadaria que levava aos dormitórios, quando seu celular começou a tocar. Andrea olhou espantada.
- E você tem celular? - A brisa gelada esvoaçando seus cachos dourados.
- Devon me deu, mas quem poderia me ligar uma hora dessas? – perguntou, e todos ao redor sentiram no ar que alguma coisa mágica, e muito especial, estava para acontecer. – Será que é ele, ou ele já deu meu número a alguém? – E colocou o celular junto ao ouvido.

- Alô? – A voz do outro lado era inconfundível. Phillip a reconheceu instantaneamente. Ele reconheceria aquela voz em qualquer lugar, não importava quanto tempo tivesse passado. Era uma voz grossa e doce, muito parecida com a sua.
Ele tinha certeza de que sabia com quem estava falando.
- Arthur? – Foi a única coisa que conseguiu pronunciar. E sorrindo consternado, amou o triskelion de gelo.



FIM
da primeira aventura...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

surge o narrador


Apenas contarei uma estória.
Meio atrasado posto que Andrea e Arthur já surgiram. (Mas...

Enfim,

Meu nome é Phillip Bristtow, eu tenho 16 anos. Tudo mentira, é claro. Eu tenho 132. Mas ninguém pode saber disso, por que eu sou um foragido.
Os meus pais desapareceram e eu me escondi em um orfanato. Que por um acaso do destino, até onde eu sei, tem o mesmo nome de seu diretor.
O Orfanato São Miguel tem uma fonte magnífica. Que o Dr. Miguel Armstrong, advogado altruísta, contempla a cada pôr-do-sol.
É claro, que ele observa a estátua da fonte bebendo.
Sentado no sofá branco do alpendre.
Por vezes, Madame Luzia acende um cigarro, e fica conversando com os gatos.
Os garotos jogam cartas, concentrados. E eu escrevo no caderno.
De tarde a fonte faz sentido.
Um anjo enorme e branco, de mármore. E através das águas, o diabo de ônix agoniza sob os pés do anjo.
O bem vence o mal.
O sagrado vence o profano.
Ou não.
Como se diz no Brasil.
Talvez o equilíbrio das existências sustentem o ser.
O que devo dizer é que escolho o bem, mas cortejo mal.
Deveria estar estudando, mas a luz da lua me faz entrar na internet enquanto Gael dorme na rede ao meu lado.
,
Eu não sei por que os elfos não gostavam de tecnologia.
A melhor coisa do mundo foi o notebook.
~*

domingo, 9 de agosto de 2009

Aleatorium ~*


Bem, o meu pensamento básico da semana é: a que ponto o mundo chegou.
Hoje um teclado e um monitor muito elegantes formam um computador onde
eu posso tirar fotos, escrever, entrar na internet, ver tv, telefonar...
tah tudo de cabeça pra baixo, e ao avesso do avesso.
Okay, Computer! Eu estou acompanhando.
Jah tinha Orkut, a galera do Google facilitou pra mim um blog,
e agora eu organizo minha vida digitalmente.
Esse período merecia uma alcunha que eu desconheço.
A Renascença foi linda, mas...
O que a gente vive hoje, é muito além.
Amanhã, vou estudar pra faculdade aqui, com o blog aberto.
-Tudo isso está me ajudando. Eu estou sendo feliz real e virtualmente.
Por hoje, vou soh ver Death Note / um desenho que começou no Japão, e ganhou o mundo.
e capotar, dormir, como diz meu irmão de Krypton.

sábado, 8 de agosto de 2009

neblina


Dois dados de pelúcia vermelhos balançavam-se de modo suave, pendurados no retrovisor central do Audi A4 preto, que seguia flutuando sobre a estrada fria de asfalto cinzento.
O tempo, é claro, estava fechado. Uma luz pálida e azul preenchia a cena. As quatro portas estavam fechadas, e o ar condicionado ligado. Não dava para observar os detalhes das árvores na paisagem.
Isolado do resto do mundo, aquele carro parecia apreciar a tristeza da solidão. Era aquele garoto dirigindo. Era ele quem gostava de ficar sozinho.
-
Arthur Lovehewitt dizia que tinha 16 anos.
Fora excepcionalmente abençoado por todos os deuses da beleza. Não importava o gosto pessoal de quem o observasse, qualquer um concordaria em dizer que seu rosto era incrivelmente harmonioso e a boa estrutura de seu corpo era inegável. Era lindo, e lembrava muito um anjo inocente. Um desses loiros, que tem os olhos verdes como esmeraldas virgens e um sorriso contagiante. Sua boca merecia explanação específica. Era deformada, mas nunca no sentido ruim da palavra. É que Arthur adorava instrumentos de sopro e isso, com o passar dos anos, alterou o formato dos seus lábios. Ficou ainda mais bonito. Apenas isso.
Seguia dirigindo de modo seguro, atento, concentrado na situação.
Talvez por que esta tivesse significado exato dentro da sua alma.
A vida, segundo Arthur, era uma bela paisagem, que no seu caso era coberta por uma densa neblina.
-
Era rico, sua família permanecia estruturada há séculos e tradicionalmente ele era o herdeiro. No entanto, a despeito da vontade e da irritante insistência de seu pai, ele não tinha planos de se casar e muito menos de dar continuidade ao império Lovehewitt. A ideia para Arthur era patética e inconcebível.
Foi por isso que aos 13 anos ele saiu de casa e foi estudar em um colégio interno masculino. Tentou ser feliz por lá, mas os garotos o evitavam por ele, mesmo sem querer, destruir a auto-estima de qualquer um que cruzasse seu caminho. Era poderoso demais, e sua aparência inocente e quieta não raro era confundida com a extrema arrogância. Era um infeliz.
Agora, na manhã de sábado em que Arthur dirigia a caminho de São Fernando, ele voltava para casa.
E, devido às cartas que recebera de seus pais, já sabia de tudo.
Mas saber de tudo não o preparava. O medo arrancava seus neurônios com as próprias mãos.
Arthur não conseguia fingir a felicidade que seus pais esperavam que ele fingisse. Não iria chegar ao lugar que ele mais odiava e sorrir.
O abraço em sua mãe era de fato sincero. Ele sempre a amou, por que ela o enxergava e o amava de verdade também. Ela percebia o que ele sentia, e sempre o entendia. Fazia de tudo para ver o filho feliz, até o ponto em que o marido controlava a situação e ela era diminuída. Portanto, era o pai a quem ele odiava realmente.
O Sr. Lovehewitt tinha uma loja de produtos para construção e Arthur não conseguia se ver administrando ou sequer visitando aquele lugar. Os planos de seu pai, porém, eram irrefutáveis. Já havia o nome de Arthur na plaquinha do escritório, e isso era só o primeiro passo.
-
Havia ainda o casamento.
Pois era costume entre os Lovehewitt casar primos. Para que a família mantivesse sempre o mesmo sangue. E, obviamente, já havia a prima escolhida para desposar o pobre coitado.
Andrea Feather, sendo uma Lovehewitt emancipada que mudara o seu sobrenome por razões pessoais, ocasionalmente visitava a casa de Arthur e compartilhava segredos com seus pais. Apesar das atitudes modernas de Andrea, ela conseguia dobrar o juízo do Sr. e da Sra. Lovehewitt. Assim, eles eram completamente convencidos de que ela era a melhor escolha para o garoto. Arthur tinha certeza de que tudo já estava sendo programado sem seu consentimento, mas ele não sabia até que ponto esses planos já haviam chegado.
Então foi, de certo, uma surpresa o que aconteceu naquela manhã.
Quando o sol raiou amarelado no céu, iluminando ainda mais seu cabelo dourado e os pelinhos loiros do seu braço, Arthur Lovehewitt chegou à cidade de São Fernando, e estacionou o carro em frente a luxuosa mansão de seus pais.
Ele relaxou todo o corpo, dolorido da longa viagem, e caiu exausto sobre a direção.
Estava ofegando de repente, cansado, triste.
Caíram algumas lágrimas de suas esmeraldas.
Estava perdido.
Teve certeza disso quando, armando-se da coragem trêmula de seus dedos, discou o número de casa, no celular. Seu pai atendeu categórico.
- Já está chegando, meu filho? - Arthur odiava aquela voz grossa e asquerosa.
- Cheguei. - Disse ele, claramente melancólico.
Mas o pai fingiu, como era habitual, não perceber tal melancolia e fez-se surgir sorridente na porta, com a mulher e a sobrinha.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

a voz


Certa tarde de domingo - meio nublado,
um grupo de dança apresentou-se no teatro da cidade
e o Sr. Gonçalves sentiu antes que deveria assistir.
O clima do lugar, desde que ele começou a procurar uma cadeira, entre tantas, estava estranho.
Havia uma poeira meio cinzenta iluminada por um breve raio de sol cintilante.
Ele respirou fundo antes de sentir-se relaxado realmente na poltrona 47.
Um número tão longe de sua idade, por acaso do tempo.
-E quantos anos será que ela tem hoje em dia?
A lembrança instantaneamente o visitou.
- Será que ela ainda faz balé? Boa pergunta...
Infelizmente, digo por que destesto clichês, o in/esperado aconteceu.
Foi exatamente ela quem surgiu por trás da fumaça do palco,
com um vestido e umas plumas brancas que faziam as vezes de uma saia.
Era a princesa, transformada em cisne pelo feitiço, no conto de fadas.
As lágrimas caíram para dentro, no Sr. Gonçalves.
Ele gritou 'Perfeita' e todos na platéia viraram os rostos para procurar aquela voz.
.
Apenas a bailarina a reconheceu.
Era do Gustavo Gonçalves, de 93.
Aquele morto de emoção na poltrona 47.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

sangue morte sangue



______________________________________prelude.

Ninguém mais na cidade lembrava o nome daquele lugar,
mas a igreja, abandonada há séculos, ainda estava ali.
As ruínas ficavam em uma floresta depois da última vila,
escondidas pelos galhos secos de tantas árvores velhas.
Com certeza, no passado, a igreja lembrava o paraíso, com
afrescos de anjos na fachada, um som doce de harpas que saía
de suas torres. No passado, era a casa de Deus.
Agora estava destruída.

______________________________________1. Salvation ~*

As famílias da última vila temiam aproximar-se daquelas ruínas.
Acreditavam que algo sobrenatural um dia trouxera morte a uma
família que tentava batizar uma criança. Nesse dia, uma maldição
pareceu ter nascido. Verdades e mentiras foram diminuídas, acrescidas,
distorcidas e inventadas, mas a maioria parecia ter certeza de que,
um dia, um homem e uma mulher apareceram de madrugada acordando o padre
da época, implorando que batizasse um bebê.
- Não posso realizar esse ritual de madrugada! É heresia! - disse o padre,
segundo os rumores.- Se vocês quiserem, podem voltar pela manhã. E
batizaremos a criança na missa das sete horas.
o homem então apontou o revólver para o padre. E com os olhos cheios de
lágrimas, gritou furioso.
- PADRE! BATIZE ESSA CRIANÇA! AGORA! Apresente logo ela a Deus...
Antes que ela conheça o Diabo.
.
As velas que iluminavam a igreja se apagaram. A escuridão dominou o altar
e um vento frio percorreu malicioso entre eles.
A mulher virou-se lentamente para a porta da igreja que estava aberta,
com os olhos assustados. Deu um grito e caiu morta.
O homem depositou o bebê sobre o altar e beijou-lhe a testa.
- BATIZE-A! - gritou, apontando o revólver para o padre mais uma vez.
E caiu morto também.

O padre recebeu o tiro no peito e suspirando aflito, molhou com água benta
os olhos do bebê, que chorou alto. Como se aquilo ardesse profundamente.
A última coisa que ele viu, foi a mesma coisa que matou os pais da criança.

A luz do sol brilhante, que surgira naquela manhã.

No domingo em que as senhoras e os senhores daquela vila estranha apareceram
para a missa, eles depararam-se com um padre morto, sem sangue algum em seu corpo.

Dos fundos da igreja, surgiu uma menina branca, de cabelos escuros, que
parecia ter treze anos. Suas íris eram vermelhas como sangue.

Ninguém se mexeu.
Eles assistiram paralisados enquanto a garotinha saiu voando pela porta.
E ela saiu sem qualquer medo da luz do sol.

a última folha


A escuridão adormecida no fundo do mar fazia parecer que o tempo não existia.

Tudo permanecia paralisado, envolvido pela densa calmaria que se apoderava do lugar.

A garota admirou a água cristalina, mas a aparente falta de vida sob aquela parte da superfície lembrou-lhe que algo misterioso se escondia por ali. Uma sensação estranha que apenas a estimulava a continuar.

Uma luz branca e forte se acendeu para iluminar o seu caminho. Ela segurava uma câmera e um refletor subaquático, com o olhar semicerrado de quem está prestando muita atenção. Mergulhava sem muito auxílio de equipamento técnico e mal sabia o nome das parafernálias que seus amigos controlavam dentro do submarino, pois conseguia respirar por muito tempo embaixo d’água e a pressão que sentia àquela altitude não lhe causava dano ou incômodo algum. Nadava suavemente no fundo do mar, a caminho de sua mais nova descoberta.

Cruzou um largo orifício entre as pedras e adentrou um túnel escuro. Sabendo que a própria natureza havia construído aquela passagem, não podia se sentir mais segura. Presos nas paredes do túnel, pequenos vaga-lumes azuis a recebiam com silenciosa gentileza. Uma espécie mágica, que a câmera de Andrea Feather documentou instantaneamente. Embora sozinha, sentia-se entregue a um momento de ostentação.

De dentro do submarino, os amigos da cientista a acompanhavam. Rebecca, uma russa que ajudava nas pesquisas, ficou chocada com o que estava vendo em seu monitor.

- Vaga-lumes azuis! E que vivem no fundo do mar! – Enquanto seu comportamento lembrava uma loira fatal, seu sotaque denunciava a criança inocente que ela era.

- Andrea é uma super estrela. – resmungou Weiss, o garoto robusto, loiro e russo, irmão de Rebecca.

- Pena que essa seja sua última aventura. – lembrou a garota – Quando ela encontrar o que quer, se isso estiver mesmo aí, a caça ao tesouro acaba.

Uma luz azul e pálida encarou Andrea quando ela chegou à superfície do lado de dentro da gruta. Respirou normalmente, como se não tivesse passado os últimos sete minutos embaixo d’água. Ela empunhou a câmera e o refletor com mais cuidado e os depositou sobre uma pedra, para retirar do bolso um GPS com bússola e altímetro. Gostava de confirmar as informações de modo científico, para ter certeza de que não estava imaginando coisas. Mas dentro dela, o tempo todo, sabia que só podia estar no lugar certo.

- Ela está lá dentro. Chegamos ao fim da linha. – Disse Weiss sorrindo.

- Finalmente o mundo vai saber. – Rebecca parecia aliviada.

Dentro da gruta, um aspecto fantasmagórico se espalhava pelo ar.

Andrea subiu equilibrando-se por pedras lodosas e encontrou o caminho. Uma brisa congelante atravessou os pêlos de sua nuca sob os cabelos dourados, que continuavam perfeitos mesmo encharcados com água do mar.

Estava pronta para encontrar a última folha.

- Eu pensei nisso o tempo inteiro – Ela falou sozinha, como se falasse ao objeto que procurava. – Que Os Antigos me perdoem pela invasão – Sussurrou séria. – Obrigado, meu Deus, trabalhe comigo aqui. – Andrea olhou para a câmera, lembrando de seus amigos que assistiam do submarino e de todas as pessoas do mundo que assistiriam quando o documentário fosse exibido na televisão.

- Um, dois, três, testando. - Nessa hora, mais do que quando estava para mergulhar, respirou fundo e começou o seu texto. – Boa noite. Estamos na cidade de Avalon, Califórnia, que no dia dez de maio de dois mil e sete sofreu os danos de um terrível incêndio. Poucas pessoas na região sabem disso, mas nossas pesquisas confirmam que um navio desapareceu durante a tragédia. Relatos de alguns moradores dessa pequena cidade nos levaram a acreditar que um houve um naufrágio, e que alguns dos tripulantes do navio se esconderam aqui nessa gruta. – Andrea fez uma breve pausa para contemplar as paredes da caverna. Então continuou – A lenda diz que eles ficaram presos e sem comunicação alguma até morrerem todos por inanição, mas que deixaram um imenso tesouro. Não estou falando de um baú cheio de jóias e diamantes. Falo de algo materialmente pequeno, mas que pode ser a chave de um enigma. Um enigma que mudará o mundo. Então, se eu encontrar esse objeto, peço que abram os seus corações para o que eu vou contar a vocês.

Andrea levantou-se, tomou a câmera nas mãos e começou a procurar.