StorgeÉ o nome da divindade grega da amizade. Por isso, quem tende a ter esse estilo de amor valoriza a confiança mútua, o entrosamento e os projetos compartilhados. O romance começa de maneira tão gradual que os parceiros nem sabem dizer quando exatamente. A atração física não é o principal. Os namorados-amigos não tendem a ter relacionamentos calorosos, mas sim tranqüilos e afetuosos. Preferem cativar a seduzir. E, em geral, mantêm ligações bastante duradouras e estáveis. O que conta é a confiança mútua e os valores compartilhados. Os amantes do tipo storge revelam satisfação com a vida afetiva. Acontece geralmente entre grandes amigos. Normalmente os casais com este tipo de amor conhecem muito bem um ao outro.
________________Renascer ~*
Como todos os dias de minha tediosa vida, nos últimos sete anos, eu acordei assim que o céu se preparou para receber a luz do sol. Sinceramente, eu prefiro a escuridão da noite e o brilho suavemente doce da lua. No entanto, a vida recomeça a cada dia, então eu acordo e levanto para a tortura diária que é morar em um mundo a que não pertenço, de jeito nenhum.
Eu acordei com o som do pequeno rádio ao lado da minha cama, programado sistematicamente para soar as músicas aleatórias da estação local toda vez que o relógio marca as cinco horas. Não há muito a fazer uma hora dessas se você mora com seus pais, ou tem uma empregada. Aqui no Orfanato São Miguel, eu tenho o que fazer.
Sempre passo pelos corredores quando ainda está meio escuro, onde a luz das velas azuis ainda possuem graça. E enquanto todos dormem, eu vou me arrumar para o trabalho. Todos menos Miguel, que uma hora dessas já está no escritório.
As crianças daqui são muito felizes. E eu também o sou, graças a companhia delas e do próprio Miguel Armstrong. E até gosto de trabalhar. Mas quando a gente acorda, o mal humor dá as caras. Sempre. Ou pelo menos, dava, até hoje. Por que hoje algo aconteceu. Hoje, eu vi um carro vindo pela estrada.
Eu tinha acabado de tomar banho, e tomava café numa caneca azul enquanto fitava, através da janela, o imenso nada. O Orfanato São Miguel fica no fim de São Fernando. Dá para ver a estrada. Principalmente para mim, sendo um elfo e tendo, por isso, a visão aguçada. É extraordinário, mas é real. Eu vejo as coisas com precisão, mesmo se estiverem a quilômetros de distância. Tenho meu limite, mas o alcance é longo. E eu vi o carro brilhando negro na neblina. Vi o garoto dirigindo, meio triste, e terminei meu café.
Quando armei minha mochila nas costas e cruzei o portão do orfanato, constatei o que pensava. O garoto loiro havia estacionado o carro em frente a mansão do Sr. Lovehewitt. Provavelmente seu filho, que não morava ali. Uma visita, talvez. Ou não...
Passei pela calçada deles, enquanto subia para o centro, e o vi descer do carro, carregando uma bela mala. Seus pais e uma garota loira estavam vindo ao seu encontro, mas ele me viu passar. Era loiro, de uma claridade que estabelecia um acordo com o céu cinzento, o fazia refletir, mas presumi que ficaria dourado se o sol já ajudasse. Usava uma camisa pólo branca, mas a gola e os viés nas mangas resplandeciam um preto igual ao do carro. O boné era púrpura e ostentava um poderoso A, escrito na mesma fonte do título no jornal The New York Times. Seus olhos eram verdes, pareciam esmeraldas virgens.
Ele olhou para mim e pareceu assustado.
Como se possuísse o medo que impulsiona o instinto.
Como se desejasse me matar com as próprias mão, por adrenalina, por pavor.
Eu desviei meu olhar, para apagar o pânico que havia dentro dele.
Mas foi assim que eu vi Arthur, pela primeira vez na minha vida.

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