A escuridão adormecida no fundo do mar fazia parecer que o tempo não existia.
Tudo permanecia paralisado, envolvido pela densa calmaria que se apoderava do lugar.
A garota admirou a água cristalina, mas a aparente falta de vida sob aquela parte da superfície lembrou-lhe que algo misterioso se escondia por ali. Uma sensação estranha que apenas a estimulava a continuar.
Uma luz branca e forte se acendeu para iluminar o seu caminho. Ela segurava uma câmera e um refletor subaquático, com o olhar semicerrado de quem está prestando muita atenção. Mergulhava sem muito auxílio de equipamento técnico e mal sabia o nome das parafernálias que seus amigos controlavam dentro do submarino, pois conseguia respirar por muito tempo embaixo d’água e a pressão que sentia àquela altitude não lhe causava dano ou incômodo algum. Nadava suavemente no fundo do mar, a caminho de sua mais nova descoberta.
Cruzou um largo orifício entre as pedras e adentrou um túnel escuro. Sabendo que a própria natureza havia construído aquela passagem, não podia se sentir mais segura. Presos nas paredes do túnel, pequenos vaga-lumes azuis a recebiam com silenciosa gentileza. Uma espécie mágica, que a câmera de Andrea Feather documentou instantaneamente. Embora sozinha, sentia-se entregue a um momento de ostentação.
De dentro do submarino, os amigos da cientista a acompanhavam. Rebecca, uma russa que ajudava nas pesquisas, ficou chocada com o que estava vendo em seu monitor.
- Vaga-lumes azuis! E que vivem no fundo do mar! – Enquanto seu comportamento lembrava uma loira fatal, seu sotaque denunciava a criança inocente que ela era.
- Andrea é uma super estrela. – resmungou Weiss, o garoto robusto, loiro e russo, irmão de Rebecca.
- Pena que essa seja sua última aventura. – lembrou a garota – Quando ela encontrar o que quer, se isso estiver mesmo aí, a caça ao tesouro acaba.
Uma luz azul e pálida encarou Andrea quando ela chegou à superfície do lado de dentro da gruta. Respirou normalmente, como se não tivesse passado os últimos sete minutos embaixo d’água. Ela empunhou a câmera e o refletor com mais cuidado e os depositou sobre uma pedra, para retirar do bolso um GPS com bússola e altímetro. Gostava de confirmar as informações de modo científico, para ter certeza de que não estava imaginando coisas. Mas dentro dela, o tempo todo, sabia que só podia estar no lugar certo.
- Ela está lá dentro. Chegamos ao fim da linha. – Disse Weiss sorrindo.
- Finalmente o mundo vai saber. – Rebecca parecia aliviada.
Dentro da gruta, um aspecto fantasmagórico se espalhava pelo ar.
Andrea subiu equilibrando-se por pedras lodosas e encontrou o caminho. Uma brisa congelante atravessou os pêlos de sua nuca sob os cabelos dourados, que continuavam perfeitos mesmo encharcados com água do mar.
Estava pronta para encontrar a última folha.
- Eu pensei nisso o tempo inteiro – Ela falou sozinha, como se falasse ao objeto que procurava. – Que Os Antigos me perdoem pela invasão – Sussurrou séria. – Obrigado, meu Deus, trabalhe comigo aqui. – Andrea olhou para a câmera, lembrando de seus amigos que assistiam do submarino e de todas as pessoas do mundo que assistiriam quando o documentário fosse exibido na televisão.
- Um, dois, três, testando. - Nessa hora, mais do que quando estava para mergulhar, respirou fundo e começou o seu texto. – Boa noite. Estamos na cidade de Avalon, Califórnia, que no dia dez de maio de dois mil e sete sofreu os danos de um terrível incêndio. Poucas pessoas na região sabem disso, mas nossas pesquisas confirmam que um navio desapareceu durante a tragédia. Relatos de alguns moradores dessa pequena cidade nos levaram a acreditar que um houve um naufrágio, e que alguns dos tripulantes do navio se esconderam aqui nessa gruta. – Andrea fez uma breve pausa para contemplar as paredes da caverna. Então continuou – A lenda diz que eles ficaram presos e sem comunicação alguma até morrerem todos por inanição, mas que deixaram um imenso tesouro. Não estou falando de um baú cheio de jóias e diamantes. Falo de algo materialmente pequeno, mas que pode ser a chave de um enigma. Um enigma que mudará o mundo. Então, se eu encontrar esse objeto, peço que abram os seus corações para o que eu vou contar a vocês.
Andrea levantou-se, tomou a câmera nas mãos e começou a procurar.

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