segunda-feira, 17 de agosto de 2009

begin


It's not a second
7 seconds away
Just as long as I stay
I'll be waiting




Enquanto Davison se revira nos lençóis na parte de cima da beliche, eu escrevo o que aconteceu. Eu só trabalhei metade do tempo previsto na cafeteria, e Miguel fez uma reunião com todos os novatos. Coisa simples, na cozinha mesmo. Fiquei ao seu lado, por ser um dos mais velhos, mas não pude dizer nada. Eu vi um pouco de tv para me atualizar na novela e saí um pouco, para caminhar pelo orfanato. Encontrei Judas Trapaceiro. O sol estava preparando-se para mais um pôr-do-sol a ser observado.
Ele estava equipado para o frio da noite. O casaco com capuz, a barba por fazer. Seus olhos brilhavam no mesmo tom castanho de toda sua pele. Estava acendendo um cigarro enquanto vinha ao meu encontro.
- Digae, meu irmão, beleza?
- Digae, Judas.
E como não era de perder tempo, perguntou sem rodeios.
- Tá afim de invadir a casa dos ricão?
- É o quê? - perguntei pasmo.
Mas Judas sempre tinha a explicação.
- Rapaz, é por que Miguel pediu pra dar uma limpada na casa, que o filho deles chegou, pô. Miguel é amigo deles. Bora, macho.
Eu não tinha a menor ideia se havia algo melhor a se fazer naquele momento. Hesitei um pouco, olhei para o orfanato, olhei para ele, e decidi.
- Eu vou, cê vai limpar o quê lá?
- A piscina.
Caminhamos pela calçada até a mansão, que ainda imperava com o brilho dos raios de sol refletidos em sua textura. Judas tocou a campainha, como se estivesse preparando-se para bater em alguém. Completamente firme, parecia um cavalo.
Uma empregada do Sr. Lovehewitt atendeu meio sem graça. Era meio moça, e só a presença de Judas já era o bastante para deixá-la impressionada. Mais que isso, ela ficava paralisada.
Mas depois da permissão para entrar, Judas adentrou como se ela não estivesse na cena. Retribuiu a admiração em segredo. Olhou de um modo tão seguramente discreto que a pobre coitada nem percebeu.
O jardim na casa era perfeito. Muito verde, com pequenas laranjeiras cheias de flores brancas, physalis laranjas caídas pelo chão e uns canteiros com gardênias brancas também. Sob a luz daquela tarde, a piscina parecia uma fonte do Olimpo.
Em frente à piscina, ele começou a trabalhar, enquanto eu apenas rodeava a cena, de braços cruzados, sentindo o frio do entardecer, e me aquecendo dentro do casaco preto. Em minutos ele estava lá só de calção, com cloro e tudo nas mãos.
- Tem as manhas de pular aqui? - perguntou ele, de dentro da piscina, limpando bem as bordas com uma espécie de esfregão. Juro que a tentação de cair naquela água azul me fez pensar que eu iria pular.
- Vontade eu tenho, coragem, não. - me contive. Agora era só negociar com Judas, que sempre pedia para eu aproveitar todos os momentos.
- Relaxe, omi, venha. - Era difícil dizer não. Mas eu estava na casa de estranhos, não ia sair todo molhado. Eu gostaria, mas não podia. E quando a retórica não funciona, o jeito é mudar de assunto.
- Judas, sabe o que seu horóscopo disse hoje?
- Não, né?
- 'Nos bastidores, seu trabalho vai fluir e haverá motivação para alcançar suas metas'.
- Massa. - Ele entendeu a piada. Judas dizia isso e eu ria do modo como ele falava. Era sempre divertido.
De repente, o garoto loiro, filho do Sr. Lovehewitt surgiu na varanda.
O sol estava brilhando dourado sobre o menino. Ele não me viu de cara. Estava observando calmamente o pôr-do-sol. Até que eu percebi, e ele disfarçou.
Seus olhos verdes pareciam transparentes, deixando os raios atravessarem direto para a alma. Vi de longe, com minha visão aguçada, a luz brilhando azul dentro do bolso da bermuda dele.
Ele atendeu o celular, e voltou para dentro de casa.

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