terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Estava sendo um mês bastante peculiar para o mundo inteiro. No Oriente, enquanto a Croácia havia acabado de se tornar o vigésimo-oitavo membro da União Europeia, um golpe de Estado havia derrubado o então presidente do Egito, Mohamed Morsi. Na Améria a situação também não era nada normal. O Brasil se via às voltas com os episódios de espionagem por parte do governo americano, que buscava obter informações confidenciais brasileiras. Mas no Rio Grande do Norte, em uma cidadezinha chamada Caicó, o alvoroço era outro. Faltava pouco tempo para mais uma Festa de Sant'ana. Dentro de alguns dias, toda a cidade, ou pelo menos boa parte dela, estaria voltada para os ritos religiosos em homenagem à padroeira da capital do Seridó. Fosse em eventos profanos ou em rodas de conversa que remontavam à origem da cidade, o espírito místico envolvendo aquela época do ano era bastante fácil de se sentir no ar. Todo caicoense conhecia a lenda do vaqueiro que encontrou em seu caminho um touro bravo, possuído pelo deus indígena Tupã. Esse nome, temido e lendário entre os índios da região, significava trovão. O que poucas pessoas sabiam era que na mitologia nativa ele sequer era um deus exatamente. Tupã era uma manifestação do Ser Supremo. Como um raio de luz, um sopro de vida, um som vindo do divino. No entanto, a confusão dos jesuítas era ignorada pelos caicoenses, que preferiam a versão onde Tupã era mesmo o Deus do Trovão. O personagem tinha tanta força no mito da criação da cidade que em espetáculos teatrais ele era um papel importante e não havia dúvidas de que ele fosse uma pessoa e não apenas um som. A lenda dava conta de um rapaz que, perambulando por essas bandas, deu de cara com o bendito touro com o Deus Tupã nos couros, mas acabou sendo salvo por Nossa Senhora Sant'ana, mãe de Maria, avó de Jesus. Em minhas pesquisas, descobri que essa estória de um touro representando um Deus é muito mais antiga que Caicó. Além de ser um signo do zodíaco, a imagem do touro aparece em várias lendas e mitos através dos tempos. O que me faz pensar que essa história de Caicó foi escrita por um pessoal bem inteligente. Na antiga Roma, o Deus Júpiter era adorado com touros adornados com flores. Assim, diz o Novo Testamento: 'E o sacerdote de Júpiter, cujo templo estava em frente da cidade, trazendo para a entrada da porta touros e grinaldas, queria com a multidão sacrificar-lhes. Atos 14:13' Eu comecei a desconfiar que havia algo estranho por trás dos monumentos de Caicó quando passei em frente à Casa da Cultura e me deparei com uma arte que coincidia com essa passagem bíblica. Havia cinco silhuetas de cabeças de touros, encapados com tecido estampado com flores. Exatamente cinco touros adornados com flores. Cinco. Júpiter é o quinto planeta mais próximo do Sol. Procurei saber mais e descobri também que a palavra júpiter é a origem do dia da semana "quinta-feira" em todos os idiomas derivados do latim com a exceção do português. Jueves, em espanhol. Quando a maioria dos caicoenses passaram por ali e viram cinco touros com flores, quantos deles sabiam que aquilo se tratava de uma referência à forma como os romanos adoravam Júpiter? A partir daí, resolvi pesquisar mais, mas acabei me envolvendo na história mais do que gostaria. Antes de prosseguirmos, voltemos ao touro mais uma vez. No hinduísmo, o gado é sagrado. No Egito, Osíris poderia aparecer com a cabeça de touro, o que também nos remete ao Minotauro dos gregos. Os desejos do ser humano enquanto fera, era isso que o touro representava. Quando Sant'ana protege o vaqueiro do touro bravo, está aprisionando o lado bestial do ser humano para que, na época de sua festa, o potencial divino e espiritual de todos floresça mais uma vez. Naquela Festa de Sant'ana, eu iria acabar entrando num labirinto como o do Minotauro. Um labirinto cheio de vielas escuras, lugares místicos e sensações intensas nunca antes sentidas. É o que passo a contar, conforme eu for me lembrando de tudo que aconteceu. Afinal, são muitos detalhes.

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